China atrasa importação de saquê e alimentos do Japão após tensão diplomática

Demora na liberação alfandegária afeta exportações japonesas e é vista como retaliação política

As exportações de saquê e alimentos do Japão com destino à China estão sofrendo atrasos na liberação alfandegária, em meio ao agravamento das tensões diplomáticas entre Pequim e Tóquio. A informação foi divulgada nesta quinta-feira por fontes do setor comercial japonês.

Segundo essas fontes, a demora nos procedimentos aduaneiros chineses é vista como uma resposta às declarações feitas em novembro pela primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que sugeriram que o país poderia agir em caso de medidas coercitivas contra Taiwan.

Empresas japonesas afetadas já entraram em contato com a Embaixada do Japão em Pequim. A missão diplomática pediu às autoridades chinesas que conduzam os trâmites comerciais de forma adequada e transparente, de acordo com pessoas familiarizadas com as relações bilaterais.

Após as declarações da premiê, a China aumentou a pressão econômica sobre o Japão. Entre as medidas adotadas estão o reforço de alertas para que cidadãos chineses evitem viajar ao Japão e a retomada da proibição da importação de frutos do mar japoneses.

Na terça-feira, Pequim também endureceu o controle sobre exportações para o Japão de itens de uso duplo, que podem ter aplicação civil e militar. Há indícios de que materiais estratégicos, como terras raras, estejam incluídos nessas restrições.

De acordo com o Ministério da Agricultura do Japão, as exportações de saquê para a China somaram cerca de 11,6 bilhões de ienes em 2024, o maior valor entre todos os destinos. No entanto, após a chegada recente dos produtos ao país asiático, a liberação alfandegária passou a levar de várias semanas a até um mês, e em alguns casos o tempo dobrou em relação ao normal.

Fontes do setor afirmam que as autoridades chinesas podem ter escolhido o saquê como alvo por ser visto como um símbolo do Japão. Os atrasos foram confirmados em portos como Tianjin e Shenzhen, no sul da China, e também atingem alguns alimentos e produtos processados.

Em certos casos, a alfândega chinesa pediu detalhes das rotas de transporte dentro do Japão para verificar se as mercadorias passaram por cidades como Fukushima, Miyagi e Tóquio. Atualmente, a China mantém a proibição de produtos marinhos e outros alimentos provenientes de 10 das 47 cidades japonesas, medida adotada após o desastre nuclear de Fukushima em 2011.

Com a economia chinesa enfraquecida pela longa crise no setor imobiliário, analistas apontam que Pequim tem optado por ações de retaliação que causem pouco impacto interno. Enquanto remessas destinadas a empresas chinesas seguem normalmente, companhias japonesas relatam que projetos conjuntos com estatais chinesas foram suspensos ou adiados.

Para representantes do setor comercial, os atrasos na liberação do saquê podem ser considerados uma forma de “pressão” ou “assédio”, já que o impacto econômico para a China é relativamente pequeno. Situação semelhante já ocorreu no início da década de 2010, quando a China reforçou inspeções alfandegárias após disputas com o Japão pelas ilhas Senkaku, afetando na época diversos produtos, incluindo componentes eletrônicos.