Enquanto o “Norte Global” lidera em tecnologia, a startup DeepSeek reduz barreiras com modelos gratuitos e desafia o domínio da OpenAI em países em desenvolvimento.
A inteligência artificial está transformando o planeta, mas não de forma uniforme. Um novo relatório da Microsoft, divulgado nesta quinta-feira, revela um cenário de contrastes: embora a adoção global de ferramentas de IA generativa tenha saltado para 16,3% da população mundial, o abismo tecnológico entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento está aumentando. Nesse vácuo, a startup chinesa DeepSeek surge como uma força geopolítica, ganhando terreno onde as plataformas ocidentais enfrentam barreiras de preço ou restrições políticas.
O Fator “Open Source” e a Quebra de Barreiras
Diferente da OpenAI ou do Google, que operam majoritariamente sob modelos de assinatura, a DeepSeek, fundada em 2023, fundamentou sua estratégia no código aberto e na gratuidade. Ao lançar seu modelo de raciocínio avançado, o R1, em janeiro de 2025, a empresa surpreendeu a indústria ao entregar uma performance comparável aos modelos americanos com um custo de processamento significativamente menor.

Para regiões sensíveis a preços, como países da África e da América Latina, a ausência de taxas de inscrição “baixou a barreira para milhões de usuários”, segundo os pesquisadores do laboratório AI for Good da Microsoft. Em muitos casos, a DeepSeek já vem instalada como o chatbot padrão em smartphones de marcas chinesas, como a Huawei, consolidando sua presença de forma orgânica.
Geopolítica e a Divisão do Mundo Digital
O relatório destaca que a adoção da IA no “Norte Global” cresce quase duas vezes mais rápido do que no “Sul Global”. No entanto, a DeepSeek está preenchendo as lacunas em mercados onde o acesso à tecnologia dos EUA é limitado ou restrito:
- China: Domina com 89% de participação de mercado.
- Rússia e Belarus: Participação de 43% e 56%, respectivamente.
- Cuba e Irã: Presença marcante com cerca de 49% e 25% do mercado local.
- África: Em países como Etiópia e Zimbábue, a fatia de mercado varia entre 11% e 14%.
Essa expansão não é isenta de polêmicas. Juan Lavista Ferres, cientista-chefe de dados da Microsoft, alerta que a DeepSeek opera sob as regras de acesso à internet da China. Isso significa que, enquanto a IA é excelente em tarefas de codificação e matemática, suas respostas a questões políticas seguem as diretrizes de Pequim, o que pode exercer uma influência ideológica considerável em escala global.

Segurança e Resistência Ocidental
Enquanto ganha o mundo em desenvolvimento, a DeepSeek enfrenta resistência em Washington, Berlim e Canberra. Países como os EUA, Alemanha e Austrália impuseram limites ao uso da ferramenta devido a riscos de segurança cibernética e soberania de dados. A própria Microsoft baniu o uso da DeepSeek entre seus funcionários no ano passado, refletindo a desconfiança que permeia a disputa pela supremacia tecnológica entre as duas superpotências.
O relatório conclui que a adoção global da IA não será moldada apenas pela qualidade dos modelos, mas pela disponibilidade e acessibilidade. A DeepSeek provou que, ao oferecer tecnologia de ponta sem custo, a China pode se tornar o padrão de inteligência artificial para grande parte da população mundial.
Com informações via Asahi Shimbun
