Spoiler do passado: A origem dos primeiros americanos pode estar no Japão

Uma nova teoria sugere que a origem dos primeiros americanos está ligada a uma “população fantasma” no Japão e suas incríveis habilidades de navegação.

Sabe quando você acha que perdeu o caminho de casa e acaba parando em outro continente? Pois é, parece que foi mais ou menos isso o que aconteceu há uns 20 mil anos. Uma nova pesquisa, publicada na prestigiada revista Science Advances, está virando o “Waze da pré-história” de cabeça para baixo ao sugerir que a origem dos primeiros americanos não foi apenas uma caminhada gelada pela Sibéria, mas sim um “cruzeiro” saindo do norte do Japão.

Pedras que “Falam”: O Match Arqueológico

Pesquisadores das universidades de Tóquio e Tohoku (em parceria com americanos) descobriram que as pontas de lança e ferramentas de pedra encontradas na América do Norte são a “cara” de artefatos desenterrados em Hokkaido, Sacalina e nas Ilhas Curilas.

Enquanto os modelos de ferramentas de Beringia (a famosa ponte de terra entre a Sibéria e o Alasca) só aparecem por volta de 14 mil anos atrás, o “design” japonês já fazia sucesso na região de Hokkaido há mais de 20 mil anos. Ou seja: o estilo chegou primeiro no Japão e só depois deu as caras nas Américas.

A ponta de projétil à esquerda, desenterrada no sítio arqueológico de Oku-Shirataki 1 em Engaru, Hokkaido, tem aproximadamente 20.000 anos e 6,6 centímetros de comprimento, enquanto a ponta de projétil à direita, desenterrada no sítio arqueológico de Cooper’s Ferry em Idaho, tem cerca de 16.000 anos e 5,8 cm de comprimento. Ambas possuem o que é chamado de design de projétil ogival de seção transversal elíptica lascada bifacialmente, que maximiza o poder de perfuração e a durabilidade. (Foto cedida por Masami Izuho via Asahi)

A “Estrada de Algas” (Kelp Highway)

Esqueça a imagem clássica de nômades caminhando por um deserto de gelo infinito. A teoria agora é muito mais… refrescante. Naquela época, a região de Beringia era um deserto polar hostil. Já os habitantes das ilhas japonesas já eram “feras” no mar, evidências mostram que eles navegavam entre ilhas em Okinawa há 35 mil anos!

A ideia é que esses grupos seguiram a “Estrada de Algas” (Kelp Highway): uma rota costeira contornando o Pacífico. Eles usavam barcos e aproveitavam os recursos marinhos (peixes e algas) para sobreviver enquanto a parte interna do continente ainda era um freezer gigante.

Quem eram esses viajantes? A “População Fantasma”

Aqui vem a reviravolta digna de filme: esses viajantes provavelmente não são os ancestrais diretos dos japoneses atuais. Os cientistas os chamam de “população fantasma”. Eles estavam lá, desenvolveram uma tecnologia incrível de navegação e caça, migraram para as Américas e… desapareceram do Japão. Os ancestrais dos atuais japoneses (o povo Jomon) só chegaram em Hokkaido muito tempo depois.

Não foi apenas uma expansão por terra. Foi uma história de adaptação tecnológica e comportamental de populações de ilhas que decidiram que o horizonte era o limite.” disse Masami Izuho, arqueólogo da Tokyo Metropolitan University.

Um globo terrestre mostra uma área que se estende de Hokkaido e outras partes das ilhas japonesas, no canto inferior esquerdo, até parte da América do Norte continental, à direita. (Imagem via Asahi)

Quer saber mais? (Fontes e Atualizações)

Para quem gosta de ir direto na fonte ou quer ver como essa discussão está evoluindo na ciência atual (em pleno 2026), aqui estão os links e conceitos essenciais:

  • O Artigo Original: Publicado na Science Advances (DOI: 10.1126/sciadv.ady9545), ele detalha a análise das pontas de projétil elípticas.
  • Hipótese da Rota Costeira: Estudos recentes de DNA antigo (Paleogenômica) confirmam que houve um isolamento de cerca de 5.000 anos antes da entrada nas Américas, e essa região do Japão agora é a candidata número 1 para esse “pit-stop” histórico.
  • Arqueologia Marítima: O professor Rintaro Ono, do Museu Nacional de Etnologia, reforça que o resfriamento global da época pode ter forçado as pessoas a trocarem a caça terrestre pelos recursos do mar, tornando-as navegadoras por necessidade.

Com informações via Asahi Shimbun