Boatos nas redes geram medo entre paquistaneses em cidade do Japão após ataque com fogos

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Desinformação e discurso de ódio levaram a ataque contra empresa e aumento da xenofobia em Ebetsu, no norte do país

Moradores paquistaneses da cidade de Ebetsu, na ilha de Hokkaido, no Japão, vivem momentos de medo e confusão após a disseminação de boatos e acusações falsas nas redes sociais. Em outubro de 2025, um ferro-velho administrado por um paquistanês foi alvo de um ataque com rojões, episódio que aumentou a tensão na região.

Ebetsu fica a cerca de 30 minutos de carro de Sapporo e tem aproximadamente 118 mil habitantes. Nos últimos anos, o número de residentes paquistaneses cresceu de forma significativa, passando de 32 pessoas em 2016 para 224 em 2025. Muitos trabalham no setor de desmontagem e exportação de carros usados, impulsionado por um grande centro de leilões na cidade.

Nas redes sociais, uma área próxima a uma mesquita local passou a ser chamada de forma pejorativa de “vila do Paquistão”. Vídeos e postagens afirmavam que o local seria perigoso e dominado por estrangeiros ilegais. No entanto, visitas de jornalistas ao local não encontraram situações de ameaça, apenas um ambiente de convivência pacífica e cooperação entre pessoas de várias nacionalidades.

Parte da polêmica começou após a circulação de informações falsas de que todas as construções irregulares em uma área de restrição urbana da cidade teriam sido feitas por paquistaneses. A prefeitura esclareceu que a maioria dessas construções foi feita por japoneses, e que o número de edificações ilegais não aumentou nos últimos anos.

Mesmo assim, foi confirmado que tanto a mesquita quanto o ferro-velho atacado foram construídos sem autorização na área restrita, o que intensificou comentários ofensivos na internet, como pedidos de deportação e acusações de terrorismo. A prefeitura recebeu cerca de 500 reclamações, muitas com conteúdo xenofóbico.

O dono do ferro-velho afirmou que não sabia da necessidade de permissão para construir no local. Em entrevista por telefone, disse que se sente tratado de forma desigual. “Tenho visto de residência e pago impostos. Tirando o problema da construção, não fiz nada errado”, afirmou.

Uma pessoa ligada à mesquita também disse querer resolver a situação de forma pacífica e evitar conflitos com a população japonesa, afirmando que desconhecia as regras da zona urbana.

Um dos principais vídeos que espalharam a polêmica foi publicado por um youtuber japonês, que afirmou que seu objetivo era criticar a atuação do governo local diante de construções irregulares, e não atacar estrangeiros. O vídeo, no entanto, ultrapassou 300 mil visualizações e foi apontado por especialistas como um fator que contribuiu para o aumento do ódio.

Segundo a professora Miki Hirata, da Universidade de Hokkaido, os vídeos misturam fatos e informações falsas, o que dificulta a compreensão do problema. Ela alerta que esse tipo de exposição funciona como uma “justiça pelas próprias mãos” e pode incentivar ações violentas, como o ataque com fogos.

A professora também relaciona o aumento do discurso anti-imigração ao clima político do Japão em 2025, especialmente durante as eleições nacionais, quando temas sobre estrangeiros ganharam mais espaço e aceitação nas redes sociais.

Desde novembro de 2025, os ataques e ofensas contra paquistaneses vêm diminuindo. Para evitar novos incidentes, Hirata defende mais diálogo e convivência entre as comunidades. “A maioria das pessoas não é extremista. Com interação constante, é possível construir entendimento entre diferentes culturas”, concluiu.