Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki ajudaram a impedir novas bombas nucleares, diz líder da ICAN

Grupo vencedor do Nobel alerta para risco de Japão rever princípios antinucleares em meio a tensões globais

Os sobreviventes das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki tiveram um papel fundamental para evitar o uso de armas nucleares desde 1945, segundo Melissa Parke, diretora-executiva da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN), vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Em entrevista à agência Kyodo News, Parke afirmou que os relatos dos hibakusha — como são chamados os sobreviventes — ajudaram a criar um “tabu nuclear” no mundo. Segundo ela, esse tabu, construído com o testemunho direto do sofrimento humano causado pelas bombas, é o principal motivo de essas armas não terem sido usadas novamente em guerras desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

“Eles mostraram ao mundo o que acontece com as pessoas debaixo da nuvem em forma de cogumelo”, disse Parke. Para ela, não foi a teoria da dissuasão nuclear que evitou novos ataques, mas sim o impacto moral e humano dessas histórias.

Parke também demonstrou forte preocupação com a possibilidade de o Japão revisar seus princípios antinucleares. Desde 1945, o país mantém a política de não produzir, não possuir e não permitir a entrada de armas nucleares em seu território, embora esteja sob a proteção do chamado “guarda-chuva nuclear” dos Estados Unidos.

Segundo fontes do governo japonês, a primeira-ministra Sanae Takaichi avalia rever o terceiro princípio, o que poderia enfraquecer a posição histórica do Japão contra armas nucleares. Para a ICAN, este não é o momento adequado para tal mudança, já que as tensões nucleares no mundo estão entre as mais altas desde a Guerra Fria.

“O Japão deveria não apenas preservar seus princípios antinucleares, mas ir além e deixar de apoiar o uso de armas nucleares para sua defesa”, afirmou Parke. Ela também pediu que o governo japonês participe como observador da próxima conferência de revisão do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, marcada para novembro.

Atualmente, 99 países e regiões já assinaram ou ratificaram o tratado da ONU que proíbe armas nucleares, mas o Japão e os países que possuem esse tipo de armamento ainda estão fora do acordo.

Parke também comentou sobre o fim, previsto para fevereiro, do tratado New START, último acordo que limita os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da Rússia. Para ela, o fim do tratado não deve servir de desculpa para uma nova corrida armamentista.

“Em tempos de alta tensão entre países, o controle de armas e o desarmamento são ainda mais importantes para a segurança internacional”, concluiu.