Pesquisa oficial sobre contratação de estrangeiros gera críticas por risco de discriminação
Em Mie, no centro do Japão, estuda voltar a exigir nacionalidade japonesa para a contratação de servidores públicos, o que na prática pode encerrar a admissão de trabalhadores estrangeiros. A decisão final será tomada pelo governador Katsuyuki Ichimi com base nos resultados da tradicional “pesquisa com 10 mil moradores de Mie”, mas o levantamento já provoca polêmica.
A pesquisa é enviada por correio ou pela internet a 10 mil eleitores escolhidos aleatoriamente e tem como objetivo medir a opinião da população sobre políticas do governo. Neste ano, ela será realizada entre 26 de janeiro e 16 de fevereiro, com divulgação dos resultados prevista para maio ou depois.
Entre as 22 perguntas de múltipla escolha e respostas de “sim” ou “não”, uma em especial chamou atenção. A questão número 16 trata diretamente da contratação de estrangeiros como funcionários da cidade.
O texto explica que Mie havia retirado anteriormente a exigência de nacionalidade, principalmente para cargos técnicos, mas afirma que alguns países obrigam seus cidadãos a cooperar com seus governos na coleta de informações. O questionário alerta que isso poderia violar o dever de sigilo dos servidores públicos. Os entrevistados devem responder se a contratação de estrangeiros deve “continuar”, “não continuar” ou se “não sabem”.
Diferente das demais perguntas, essa é longa e detalhada, citando riscos de vazamento de informações sobre áreas como agricultura, gestão de desastres e até segurança em visitas de autoridades e membros da família imperial a locais como o santuário de Ise.
Prefeitos da região criticaram duramente a forma como a pergunta foi elaborada. O prefeito de Ise, Kenichi Suzuki, lembrou que todos os servidores públicos já são obrigados por lei a manter sigilo, inclusive após a aposentadoria.
Já o prefeito de Iga, Toshinao Inamori, afirmou que a pergunta “prejudica a convivência multicultural e pode incentivar discriminação ou discurso de ódio”. Ele pediu oficialmente ao governador a retirada da questão, dizendo que ela desvaloriza os funcionários estrangeiros que já trabalham e fere sua dignidade.
O prefeito de Nabari, Hiroyuki Kitagawa, também defendeu a exclusão da pergunta e alertou que ela pode levar a população a acreditar que “funcionários estrangeiros são perigosos”.
Críticos também apontam a baixa taxa de participação da pesquisa. No ano passado, apenas 4.592 pessoas responderam, o equivalente a 45,9% dos selecionados. Para eles, usar a opinião de uma parcela pequena dos 1,7 milhão de habitantes da cidade para justificar mudanças importantes exige mais transparência.
Enquanto isso, a cidade de Yokkaichi já deixou claro que não pretende mudar sua política. O prefeito Tomohiro Mori afirmou que o município continuará contratando estrangeiros. Atualmente, quatro trabalhadores estrangeiros atuam como funcionários efetivos, com restrições a cargos ligados a decisões administrativas ou exercício de autoridade pública.
Segundo Mori, regras internas são suficientes para lidar com eventuais preocupações. “Estamos comprometidos com a convivência multicultural e com o tratamento justo para todos”, afirmou.
