Cebola que não faz chorar começa a ganhar espaço no Japão

Variedade “Smile Ball”, cultivada em Hokkaido, pode ser consumida crua sem ardor e deve quintuplicar a produção até 2029

Uma cebola que não faz chorar ao ser cortada, não arde mesmo quando consumida crua e pode ser usada em saladas sem precisar ficar de molho em água está sendo cultivada na ilha de Hokkaido, no Japão.

A variedade, chamada “Smile Ball”, foi desenvolvida pela empresa japonesa House Foods Group Inc. e vem conquistando espaço desde seu lançamento, em 2015. A meta é ampliar a produção para cerca de 1.000 toneladas até 2029 — mais de cinco vezes o volume atual de vendas.

Pesquisa premiada internacionalmente

A “Smile Ball” foi criada em 2012, mas a ideia surgiu ainda na década de 1990. Durante a produção de curry industrializado, pesquisadores notaram que cebolas e alho ficavam esverdeados ao serem refogados juntos. Para entender a reação química, cientistas analisaram os componentes dos dois ingredientes.

Nesse processo, foi descoberto um novo enzima responsável pela produção dos compostos que causam o ardor característico da cebola. Os resultados da pesquisa foram publicados em 2002 na revista científica britânica Nature.

Com o avanço dos estudos, os pesquisadores compreenderam o mecanismo da reação enzimática que gera o sabor picante. A partir disso, levantaram a hipótese de que bloquear essa reação poderia resultar em uma cebola sem pungência. O desenvolvimento foi concluído em 2012 e, no ano seguinte, a pesquisa recebeu o Prêmio Ig Nobel de Química, conhecido por destacar estudos inusitados que fazem as pessoas rir e pensar.

Pode ser consumida crua e em fatias grossas

Segundo a House Foods, a “Smile Ball” não precisa ser deixada de molho em água para reduzir o ardor, o que facilita o preparo em restaurantes e lojas especializadas em saladas. Além disso, como não passa pelo processo de imersão, mantém nutrientes solúveis em água que normalmente seriam perdidos.

O sabor doce é semelhante ao da cebola comum e, quando refogada, a textura fica macia, quase como geleia. Em casa, outro diferencial é que não deixa cheiro forte nas mãos, nas facas ou nas tábuas de corte.

Noriya Masamura, de 61 anos, chefe de seção do departamento de promoção de agronegócios da empresa e envolvido no projeto há mais de 20 anos, recomenda o consumo cru. “Corte em fatias de 5 a 7 milímetros, misture com um pouco de sal, ervas secas e azeite. A doçura aparece e combina perfeitamente com vinho branco”, afirma.

Produção concentrada em Hokkaido

Atualmente, a “Smile Ball” só pode ser cultivada em regiões ao norte do paralelo 41, o que torna Hokkaido sua principal área de produção. A empresa mantém contratos com agricultores na cidade de Kuriyama e em outras localidades.

Foram vendidas 48 toneladas no ano de 2023 e 124 toneladas em 2024. Neste ano, a meta é alcançar 180 toneladas, com crescimento gradual nos próximos anos. A empresa e os produtores também trabalham para manter a produtividade mesmo em períodos de altas temperaturas e seca.

O agricultor Tamotsu Nishino, 43 anos, que cultiva a variedade desde 2015, afirma que o retorno dos consumidores é motivador. “Quando dizem que querem comprar de novo ou que querem mais, isso nos anima. A equipe técnica fornece dados detalhados e orientações, o que ampliou meu conhecimento”, diz.

O preço previsto para este ano é de 278 a 298 ienes (cerca de US$ 2) por duas unidades de tamanho grande. O produto está disponível em supermercados de Hokkaido e da região metropolitana de Tóquio.