Temperaturas mais altas e uso de neve artificial levantam debate sobre mudar o calendário dos Jogos de Inverno
As Paralimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, realizadas na cidade de Cortina d’Ampezzo, no norte da Itália, estão acontecendo em meio a preocupações com a quantidade e a qualidade da neve nas pistas. O aumento das temperaturas causado pelo aquecimento global tem levantado dúvidas sobre a realização do evento em março em diversas regiões do mundo.
Com cenário das montanhas Dolomitas ao fundo, muitas provas estão sendo disputadas sobre neve parcialmente artificial. As temperaturas acima do normal têm deixado a superfície das pistas mais molhada e pesada, dificultando o desempenho dos atletas e provocando quedas até entre esquiadores experientes.
Diante dessa situação, cresce o debate sobre antecipar o calendário dos Jogos de Inverno. Uma das propostas discutidas é realizar os Jogos Olímpicos de Inverno em janeiro, em vez de fevereiro, e as Paralimpíadas em fevereiro, em vez de março. A possibilidade foi mencionada pela presidente do Comitê Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, antes das Olimpíadas do mês passado.
Dados da organização climática Climate Central mostram que a temperatura média de março em Cortina d’Ampezzo aumentou 3,6 °C desde 1956, quando a cidade sediou os Jogos Olímpicos de Inverno daquele ano.
Nas últimas décadas, o uso de neve artificial tornou-se comum em competições de inverno. Nos Jogos de Pequim em 2022, quase toda a neve utilizada foi produzida artificialmente.
Representantes do Comitê Paralímpico Internacional afirmam que é necessário lidar com os impactos das mudanças climáticas, mas minimizaram problemas nas competições atuais. Segundo o diretor de marca e comunicação da entidade, Craig Spence, o nível esportivo das provas continua alto.
Alguns atletas, porém, relatam dificuldades maiores. O japonês Taiki Kawayoke, quarto colocado no esqui cross-country paralímpico masculino de 10 quilômetros, descreveu as condições como as mais difíceis de sua carreira, afirmando que a neve chegava até os tornozelos.
Durante a prova de downhill do esqui alpino sentado no último sábado, vários competidores experientes também caíram. Apenas 11 dos mais de 20 participantes conseguiram completar o percurso.
Entre os que sofreram quedas estava o japonês Taiki Morii, veterano de sete edições das Paralimpíadas. Ele afirmou que a falta de neve expôs irregularidades no terreno da pista.
A chefe da delegação japonesa, Kuniko Obinata, disse que a situação levanta dúvidas sobre manter os Jogos nesse período do ano. Segundo ela, a equipe já esperava temperaturas relativamente altas, mas o calor superou as previsões.
Um relatório publicado em janeiro por pesquisadores liderados pelo professor Daniel Scott, da Universidade de Waterloo, no Canadá, aponta que, das 93 cidades que já sediaram ou poderiam sediar as Paralimpíadas de Inverno, apenas entre 17 e 31 devem continuar adequadas até a década de 2050. Até os anos 2080, esse número pode cair para apenas quatro a 31 locais.
Antes de 1992, as Paralimpíadas de Inverno eram realizadas em janeiro ou fevereiro e em cidades diferentes das Olimpíadas. Segundo o estudo, retomar esse modelo pode ser uma das alternativas para garantir o futuro dos Jogos diante das mudanças climáticas.
