Documento interno detalha encontros na sede do PLD e promessas de 200 mil votos feitas pela Igreja da Unificação ao governo.
Um documento interno de proporções massivas, com cerca de 3.200 páginas, trouxe à tona novos e perturbadores detalhes sobre a profundidade das relações entre a elite política japonesa e a Igreja da Unificação. Obtido pelo jornal Mainichi Shimbun, o chamado “Relatório Especial TM” cita o falecido ex-primeiro-ministro Shinzo Abe aproximadamente 500 vezes, um volume significativamente maior do que qualquer outro político mencionado.
O relatório, escrito majoritariamente em coreano, consiste em comunicações de executivos da seita para a sua líder máxima, Hak Ja Han, conhecida internamente como “True Mother” (TM). O conteúdo abrange o clima político japonês entre 2016 e 2023, revelando uma teia de contatos entre membros do PLD e a organização religiosa que era, até então, desconhecida em sua totalidade.

O Encontro na Sede do PLD
Um dos trechos mais impactantes descreve uma reunião ocorrida em 2 de julho de 2019, apenas dois dias antes do início oficial da campanha para a Câmara dos Conselheiros. Segundo os relatos de Eiji Tokuno, ex-presidente do braço japonês da seita, ele e outros líderes da Igreja da Unificação reuniram-se com Shinzo Abe e seu aliado Koichi Hagiuda em uma sala reservada na sede do PLD.
O objetivo era garantir apoio a um candidato da facção Hosoda (precessora da facção Abe). “(Nós) dissemos: ‘Defenderemos pelo menos 200.000 votos a todo custo’ e declaramos que estávamos lutando com esforços de toda a organização” disse o documento citando Tokuno. Em resposta, os políticos teriam ficado “extremamente satisfeitos e pareceram sentir-se à vontade” disse o relatório.
Hagiuda e a Conexão com o Governo
Koichi Hagiuda, figura de destaque no PLD, é mencionado cerca de 70 vezes no documento. Relatos de setembro de 2020 indicam que ele era o responsável por organizar e observar os encontros entre os líderes da seita e Abe. Questionado pelo Mainichi, o escritório de Hagiuda admitiu a reunião em 2019, mas negou qualquer reconhecimento da presença de oficiais da Igreja da Unificação.
“Não é verdade que ele (Hagiuda) tenha coordenado, mediado ou estado envolvido continuamente em reuniões” disse o escritório do político em resposta por escrito. No entanto, Tokuno confirmou a veracidade do envolvimento de seus próprios relatos no dossiê: “É verdade que o Relatório Especial inclui meus relatos” disse Eiji Tokuno.
Contexto Internacional e Pressão por Explicações
A existência deste relatório veio à tona durante investigações de promotores sul-coreanos, que em outubro de 2025 indiciaram a líder Hak Ja Han por violações da lei de fundos políticos. A Igreja da Unificação admitiu que o documento é autêntico, embora alegue que certos trechos possam estar “exagerados” ou “embelezados”.

Para especialistas, as revelações exigem uma postura mais transparente das autoridades japonesas. “Embora o PLD também tenha conduzido uma investigação interna sobre sua relação com a igreja, ela foi insuficiente” disse Koji Nakakita, professor de ciência política na Universidade Chuo. Segundo ele, os políticos mencionados têm a responsabilidade ética de fornecer explicações claras à sociedade.
O caso reforça a percepção de que a Igreja da Unificação buscou ativamente “construir um nível de laços que nos permitisse recomendar medidas políticas concretas” ao governo, como afirmado em um relatório de 2018. Com a proximidade de novas eleições, a sombra deste escândalo promete continuar pairando sobre o partido governista.
Com informações via Mainichi Shimbun
