Desastre de 2011: o dia que nunca saiu da minha memória

Por: CE Rodrigues

Aquilo para mim, foi um dos piores dias da minha vida. Quinze anos se passaram desde aquele 11 de março. Ainda assim, as imagens, as vozes e o medo continuam vivos, pelo menos da memória de um homem de 25 anos.

Naquela madrugada brasileira, eu estava em casa, em Caucaia, no Ceará, a cerca de 18 mil quilômetros dali. Por volta das três da manhã, o meu celular tocou, me acordando. Era algo incomum naquele horário. Quando atendi, ouvi uma voz trêmula do outro lado da linha. Minha namorada, que morava em Osaka, dizia que a terra havia tremido com força.

Naquele momento, nem ela também sabia exatamente o que estava acontecendo. Porém, bastaram poucos minutos para eu perceber que se tratava de algo muito maior. Liguei o computador, conectei o VPN e comecei a assistir aos canais japoneses. As imagens que apareceram na tela são, até hoje, algumas das mais assustadoras que já vi.

Quando a notícia vira dor pessoal

O Japão sempre conviveu com terremotos. O país enfrentou desastres marcantes ao longo da história, como o grande terremoto de 1923 ou o sismo de Kobe em 1995. No entanto, nada se comparava ao que acontecia naquele dia. Um terremoto de magnitude 9, seguido por um tsunami devastador, atingia a região de Tohoku. Nem cito aqui as tragédias humanas como 1945, 1985, 1996, 2005 e 2019.

Quando o tsunami chegou, as ondas avançavam sobre cidades inteiras. Casas, carros e barcos eram arrastados pela água como se fossem brinquedos. Enquanto isso, jornalistas transmitiam ao vivo usando capacetes, tentando continuar o trabalho mesmo em meio ao perigo.

Logo depois veio outro choque: a crise na usina nuclear de Fukushima. O mundo assistia, atônito, ao risco de um desastre nuclear enquanto milhares de pessoas já lutavam para sobreviver ao tsunami. E a explosão aconteceu, fazendo o mundo vivenciar um novo Chernobyl depois de 25 anos, até então.

Naquele dia, mais de 15 mil pessoas perderam a vida. Além disso, milhares ficaram feridas, desaparecidas ou deslocadas. O Japão precisou investir mais de 40 trilhões de ienes na reconstrução. Porém, mesmo com todo esse esforço, algumas perdas simplesmente não podem ser reparadas.

O dia em que deixei de ser apenas um observador

Vídeo do Tsunami por um cinegrafista amador, os gritos mandavam as pessoas fugirem da pista | 2011

Enquanto tudo acontecia, eu não conseguia ficar parado. Na época, eu já produzia conteúdo jornalístico de forma independente. Era o meu quarto ano nessa caminhada, mesmo sendo ainda muito jovem.

Passei horas transmitindo informações ao vivo pela internet. Traduzi notícias do japonês para o português e acompanhei cada atualização que surgia. Foram mais de seis horas seguidas sem dormir, apenas tentando entender e explicar o que estava acontecendo.

Para muita gente, aquilo poderia parecer apenas um hobby. Para mim, no entanto, já era algo muito sério. Desde criança, o jornalismo deixou de ser brincadeira e virou paixão.

Mas naquele dia, essa mesma paixão também trouxe-me lágrimas aos olhos. Entre os milhares de mortos, quatro amigos meus estavam entre as vítimas. Receber essa notícia foi devastador, principalmente porque eu ainda não sabia lidar com perdas no auge dos meus 10 anos.

Quinze anos depois, a tragédia ainda ecoa

Hoje, o Japão reconstruído mostra sinais impressionantes de recuperação. Estradas, cidades e portos foram refeitos. No entanto, as feridas humanas permanecem abertas.

Muitas famílias ainda vivem em habitações públicas construídas após o desastre. Algumas áreas próximas à usina de Fukushima continuam com restrições por causa da radiação. Além disso, cerca de 2.400 pessoas seguem oficialmente desaparecidas.

De vez em quando, uma descoberta reacende a memória coletiva. Recentemente, restos mortais de uma menina foram identificados por DNA e entregues à família. Foi um pequeno gesto de encerramento em meio a milhares de histórias que nunca tiveram um final.

O desastre de 2011 deixou cicatrizes profundas. Cada pessoa carrega essas marcas de uma forma diferente. Porém, há algo que todos que viveram ou acompanharam aquela tragédia sabem: algumas dores simplesmente não desaparecem com o tempo.

Cada um lida com suas dores e feridas. Mas, se for para falar de feridas: Ainda que 15 anos tenham se passado, este tipo de ferida está muito… mas muito longe de cicatrizar.