Sistema chamado BuddhaBot usa textos budistas para orientar usuários e já é testado por centenas de monges
No alto do Himalaia, no reino budista do Butão, monges estão recorrendo a uma ferramenta inesperada para orientação espiritual: a inteligência artificial.
Um chatbot chamado BuddhaBot está sendo usado para responder perguntas e oferecer conselhos com base nos ensinamentos de Buda. A tecnologia permite que usuários busquem orientação a qualquer hora e em qualquer lugar.
O sistema foi desenvolvido por um professor da Universidade de Kyoto que também atua como abade de templo. A iniciativa faz parte de um esforço para unir tecnologia avançada à prática religiosa e incentivar o interesse contínuo pelo budismo.
Na capital Thimphu, o secretário do Conselho Monástico do país, Choten Dorji, testou o sistema em um computador. Ao perguntar como lidar com a inveja, recebeu uma resposta em poucos segundos, baseada em ensinamentos budistas sobre sofrimento, purificação da mente e compaixão.
O BuddhaBot utiliza escrituras budistas, como o Dhammapada, para orientar usuários em dilemas cotidianos e questões espirituais. Segundo Dorji, o sistema se destaca pela clareza: “É lógico e ideal. O BuddhaBot é verdadeiro e nunca mente”, afirmou.
A tecnologia foi criada pelo laboratório liderado por Seiji Kumagai, em parceria com a startup Teraverse. A ideia surgiu por volta de 2014, diante da preocupação com a queda no número de templos no Japão — estimativas indicam que até 30% podem desaparecer até 2040.
Inicialmente, o projeto buscava criar um sistema que permitisse às pessoas “conversar com o Buda” por meio da tecnologia. Em 2021, surgiu a primeira versão do BuddhaBot, mas as respostas curtas não agradaram totalmente os usuários.
Em 2025, uma versão mais avançada, chamada BuddhaBot Plus, foi lançada com tecnologia de IA generativa baseada no ChatGPT. O sistema passou a oferecer explicações mais completas e interpretações dos ensinamentos budistas.
Atualmente, cerca de 450 monges no Butão utilizam a ferramenta em fase de testes. A expectativa é ampliar esse número no futuro.
O interesse pela tecnologia também cresce em outros países, como Sri Lanka e Tailândia, onde comunidades budistas avaliam adotar o sistema.
Apesar do avanço, ainda há desafios. Um deles é o risco de “alucinações” da IA, quando o sistema gera informações incorretas. Para reduzir esse problema, os desenvolvedores separaram trechos originais das escrituras das interpretações feitas pela inteligência artificial.
O projeto continua evoluindo. Em fevereiro deste ano, Kumagai anunciou o desenvolvimento de um robô humanoide equipado com o BuddhaBot Plus, ampliando ainda mais as possibilidades de disseminação dos ensinamentos budistas.
Segundo ele, a combinação entre tecnologia e tradição pode fortalecer a religião no mundo moderno. “Podemos maximizar o potencial do budismo utilizando a inteligência artificial”, afirmou.
