Mudanças operacionais e falta de funcionários levam empresa ferroviária a padronizar sons e encerrar tradição cultural
As melodias características que por décadas marcaram a partida dos trens nas estações da East Japan Railway Co. (JR East) estão desaparecendo gradualmente. A mudança ocorre com a adoção crescente de operações com apenas um funcionário e a modernização dos sistemas de transmissão sonora.
Para muitos passageiros e comunidades locais, o fim dessas músicas representa a perda de um elemento cultural querido do cotidiano ferroviário japonês.
Na região metropolitana de Tóquio, as melodias de partida — antes acionadas por condutores nas plataformas — já foram descontinuadas em um número crescente de estações. A principal razão é a eliminação do cargo de condutor em algumas linhas e a atualização tecnológica dos sistemas.
Segundo um executivo da empresa, essas músicas “não estarão por aqui para sempre”.
Na estação de Kawasaki, por exemplo, uma versão em estilo marcha do “Hino da Cidade de Kawasaki” deixou de ser tocada em março de 2025. No lugar, passou a ser usada uma melodia padronizada, comum a várias estações. Como forma de preservar a lembrança, a música foi transformada em um pequeno brinquedo cápsula que reproduz o som original ao ser acionado.
A iniciativa, feita em parceria com a prefeitura local, busca manter viva a memória sonora. Um representante municipal comparou a mudança à transformação de “uma loja local querida em uma rede genérica”, destacando a perda de identidade.
Situação semelhante ocorre na estação de Noborito, também em Kawasaki, onde brinquedos lançados em janeiro reproduzem uma música de anime que antes fazia parte das melodias da estação. A canção remete ao legado do criador de mangás Fujiko F. Fujio, que viveu na região.
Moradores e fãs têm demonstrado tristeza com o desaparecimento dessas músicas, muitas vezes ligadas à história e à cultura locais.
A justificativa operacional, no entanto, é direta. Com a expansão do sistema de operação com apenas um funcionário — adotado para enfrentar a escassez de mão de obra — tornou-se impraticável manter o modelo tradicional. Antes, o condutor podia descer na plataforma e acionar a melodia após a chegada do trem. Já o maquinista, trabalhando sozinho, não pode deixar a cabine.
Na linha Nambu, a JR East já substituiu melodias locais em oito estações, incluindo Kawasaki, após mudanças no cronograma em março de 2025. Quando presentes, os novos sons padronizados são acionados diretamente pelo maquinista.
Fora da região da capital, algumas estações ainda mantêm melodias próprias, mas o futuro também é incerto.
Na estação de Ishinomaki, em Miyagi, a música suave da plataforma da linha Senseki foi composta em 2002 pelo músico local Koji Izumi. Ele criou a melodia inspirado nas imagens da cidade portuária, como uma homenagem à sua terra natal.
Para moradores como Norimasa Chiba, o som tem valor emocional. Ele chegou a usar a melodia como toque de celular. “É um som familiar da minha cidade. Quando ouço músicas de estações em viagens, sinto vontade de conhecer mais sobre o lugar”, afirmou.
Ainda assim, a escassez de funcionários também afeta a região de Tohoku. Na estação Miyaginohara, em Sendai, uma melodia com tema de beisebol foi encerrada no fim de fevereiro, antes da implementação da operação com um único funcionário na linha Senseki, em março.
Segundo autoridades da JR East, essas músicas não são essenciais para a segurança. Em alguns casos, são mantidas como forma de divulgação local, mas a demanda tem sido baixa, especialmente fora dos grandes centros.
Com os avanços tecnológicos garantindo a segurança das operações, a manutenção dessas melodias em estações com poucos funcionários se torna cada vez mais difícil.
Para muitos passageiros, porém, o silêncio nas plataformas representa mais do que uma mudança técnica: marca o desaparecimento gradual de uma trilha sonora que fazia parte da rotina diária no Japão.
