Boom global do matcha faz preços dispararem e preocupa indústria do chá no Japão

Alta demanda internacional pelo chá verde em pó esgota produtos, aumenta exportações e provoca falta de matérias-primas no mercado japonês

O consumo mundial de matcha, o tradicional chá verde japonês em pó, está crescendo rapidamente e transformando a indústria do chá no Japão. A alta procura internacional vem impulsionando exportações e aumentando os preços, mas também começa a provocar escassez de produtos e preocupações entre produtores e comerciantes japoneses.

Em lojas especializadas do Japão, latas pequenas de matcha premium estão desaparecendo das prateleiras poucos minutos após serem colocadas à venda. Produtos feitos por fabricantes tradicionais da região de Uji, considerada uma das mais famosas produtoras de chá do país, custam entre 2 mil e 3 mil ienes por unidade, equivalente a cerca de US$ 13 a US$ 19.

Segundo comerciantes locais, o interesse explodiu principalmente entre turistas estrangeiros vindos da Europa, América do Norte e outros países da Ásia. Muitos consumidores procuram marcas específicas e demonstram grande conhecimento sobre qualidade e origem do produto.

Além do turismo, as exportações também estão crescendo fortemente. Dados do Ministério das Finanças do Japão mostram que as exportações de chá verde aumentaram 43% em 2025, alcançando 12.612 toneladas. O volume é três vezes maior do que o registrado há dez anos, sendo o matcha o principal responsável pela expansão.

A Estados Unidos lidera as importações, mas o produto também ganha espaço na Europa e em diversos países asiáticos.

No exterior, o matcha se tornou popular como ingrediente de bebidas energéticas e receitas saudáveis. Muitas pessoas misturam o pó em vitaminas e smoothies por causa da cafeína natural presente no chá. Além disso, o produto vem sendo associado a práticas de relaxamento e bem-estar mental.

O governo japonês vê o crescimento do matcha como estratégico para ampliar as exportações agrícolas e alimentares do país até 2030.

Com a demanda em alta, produtores enfrentam uma forte disputa pela matéria-prima usada na fabricação do matcha, conhecida como tencha. O processo de produção exige técnicas especiais: antes da colheita, as plantas ficam cobertas por semanas para evitar luz solar direta e aumentar os compostos responsáveis pelo sabor característico.

Empresas afirmam que não conseguem atender todos os pedidos. A Itoen Ltd., uma das maiores fabricantes de bebidas do Japão, criou em 2025 uma divisão exclusiva dedicada ao mercado de matcha para expandir as vendas na Europa, América do Norte e Ásia.

Regiões produtoras também começaram a priorizar a produção de tencha. Em Yame, produtores aumentaram significativamente a participação desse tipo de chá na produção total e planejam ampliar fábricas de processamento. O Ministério da Agricultura japonês oferece subsídios para incentivar a conversão das plantações.

Apesar do crescimento das vendas, o cenário preocupa parte do setor. Com mais produtores focados no matcha, variedades mais baratas de chá verde e chá torrado, conhecido como hojicha, estão ficando escassas.

Em Kagoshima, principal região produtora de chá do país, alguns tipos de folhas chegaram a triplicar de preço em 2025. Outros produtos tradicionais tiveram aumento de até seis vezes em relação aos valores habituais.

Especialistas apontam que o problema também está ligado à redução das áreas de cultivo de chá no Japão ao longo das últimas décadas. O consumo doméstico caiu com o avanço de outras bebidas, como café e refrigerantes. Segundo o governo, a área cultivada, que ultrapassava 60 mil hectares nos anos 1980, caiu para 33,4 mil hectares em 2025.

Além disso, plantações de chá levam anos para atingir o ponto ideal de colheita, dificultando uma expansão rápida da produção.

Dados da Teikoku Databank Ltd. mostram que o número de fechamentos de empresas do setor de chá atingiu recorde em 2025. Pequenas lojas já relatam dificuldade para conseguir matéria-prima e alertam para o aumento contínuo dos preços.

O impacto também chegou aos produtos industrializados. O preço do chá engarrafado segue subindo no Japão, e comerciantes acreditam que restaurantes e instituições que oferecem chá gratuitamente poderão substituir o produto por alternativas mais baratas, como chá de cevada.

Enquanto o matcha conquista consumidores ao redor do mundo, cresce no Japão a preocupação de que o sucesso internacional possa desequilibrar toda a cadeia tradicional do chá japonês.