Artes do Studio Ghibli feitas por IA invadem a internet

Por Luiz Gustavo Pinheiro

Arte e IA em Dilema: O Caso Studio Ghibli. Mas o que o co-fundador do estúdio de animação, Hayao Miyazaki pensa sobre isso?

A internet tem seus ciclos e tendências. De tempos em tempos, uma nova febre toma conta das redes, transformando imagens, personagens e até rostos conhecidos em versões estilizadas. A mais recente envolve o Studio Ghibli, um dos estúdios de animação mais respeitados do mundo, e a tecnologia de inteligência artificial.

Com o lançamento do novo gerador de imagens da OpenAI, a estética Ghibli foi rapidamente replicada por usuários de redes sociais, gerando um boom de imagens no estilo do renomado estúdio japonês. De personagens fictícios a celebridades, tudo ganhou uma nova versão no traço suave e nostálgico que marcou a infância de muitos. Até Sam Altman, CEO da OpenAI, entrou na brincadeira, trocando sua foto de perfil por uma arte gerada na nova IA.

Mas enquanto a internet se diverte, um nome inevitavelmente vem à tona: Hayao Miyazaki. O lendário cineasta, cofundador do Studio Ghibli e autor de clássicos como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro, já expressou seu desdém pelo uso da IA na arte. Em 2016, ao assistir a uma demonstração de animação criada por inteligência artificial, foi categórico: “Estou completamente enojado. Eu sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida.”

Miyazaki não está sozinho nessa resistência. O debate sobre a IA na indústria criativa ganhou força nos últimos anos. Escritores, roteiristas e artistas protestam contra a utilização dessas tecnologias, alegando que a automação da criação artística compromete a originalidade e desvaloriza o trabalho humano. Na greve de roteiristas e atores de Hollywood em 2023, um dos pontos centrais da discussão foi justamente o uso de IA para criar roteiros e substituir dubladores.

O Studio Ghibli, até o momento, não se manifestou oficialmente sobre a febre de imagens geradas por IA inspiradas em seu estilo. Circulou nas redes sociais uma nota falsa alegando que o estúdio processaria quem usasse seus traços com essa tecnologia. Mas, ao contrário do que alguns esperavam, não houve (ainda) uma reação oficial.

A pergunta que fica é: até que ponto essa nova onda representa uma ameaça à arte tradicional? Afinal, sempre existiram imitações, homenagens e até cópias descaradas no mundo da animação. A IA apenas tornou o processo mais rápido e acessível.

Por outro lado, há algo quase paradoxal nesse fenômeno. O Studio Ghibli sempre foi um símbolo da resistência contra a industrialização da arte. Suas animações são feitas à mão, quadro a quadro, com atenção meticulosa a cada detalhe. São obras que transbordam humanidade, transmitindo sensações que dificilmente uma máquina conseguiria replicar.

Seja como for, as inteligências artificiais avançam rápido demais para que possamos ignorá-las. O próprio Miyazaki, ao lançar O Menino e a Garça em 2023, admitiu que talvez esse fosse seu último filme, uma despedida de um mestre que vê o mundo da animação mudar diante de seus olhos.

O que acontecerá nos próximos anos? A IA será apenas mais uma ferramenta auxiliar para artistas, ou substituirá parte da criatividade humana? Por enquanto, tudo o que podemos fazer é assistir, e, quem sabe, aproveitar a ironia da situação: uma tecnologia que pode replicar os traços do Ghibli, mas jamais capturar sua alma.