Mulheres apitarão torneio nacional de beisebol escolar no Japão pela primeira vez na história

Cinco árbitras atuarão no tradicional campeonato de Koshien, quebrando uma barreira histórica de mais de 100 anos no esporte japonês

Pela primeira vez em mais de um século de história, mulheres atuarão como árbitras no tradicional torneio nacional de beisebol escolar de Koshien, um dos eventos esportivos mais importantes e prestigiados do Japão.

Cinco árbitras foram selecionadas para trabalhar no campeonato nacional de verão, que será realizado em agosto no Estádio Koshien, localizado na cidade de Nishinomiya, próxima a Osaka. A participação marca um momento histórico para o esporte japonês, já que, desde a criação dos torneios escolares de primavera e verão, apenas homens exerciam a função.

A decisão faz parte dos esforços da Federação Japonesa de Beisebol Escolar para ampliar a participação no esporte e enfrentar a escassez de árbitros, problema agravado pela redução do número de jovens praticantes da modalidade.

Entre as escolhidas está Kana Sato, de 39 anos, integrante da Federação de Beisebol Escolar de Saitama. Ela afirmou que pretende desempenhar a função com atenção e personalidade própria.

“Quero fazer cada marcação com muito cuidado. Minha voz é diferente da voz de um homem, mas espero que as pessoas percebam que esse tipo de voz também funciona bem”, declarou.

Sato começou sua trajetória como árbitra há mais de dez anos, quando atuava como supervisora de um clube de beisebol em uma escola de ensino fundamental. Interessada em orientar os estudantes de uma nova forma, ela decidiu estudar arbitragem de maneira mais aprofundada.

Sua dedicação a levou a atuar em competições internacionais, incluindo a Copa do Mundo de Beisebol Sub-18 realizada no ano passado.

Mãe de duas crianças, Sato destaca que o apoio da família e das pessoas ao seu redor foi fundamental para que pudesse continuar trabalhando nos gramados, inclusive com ajuda nos cuidados com os filhos durante os jogos.

Outra árbitra selecionada é Kasumi Iwao, de 33 anos, de Kanagawa. Para ela, participar de Koshien possui um significado especial.

Quando era estudante da então Escola Secundária Feminina Kamata, atualmente chamada de Escola Internacional Haneda, em Tóquio, ela conquistou um torneio nacional feminino de beisebol. Apesar do sucesso, lembra que o esporte feminino recebia pouca atenção na época.

“Os meninos podiam sonhar em jogar em Koshien. Eu pensava: ‘Que sorte a deles’”, recordou.

Após concluir os estudos, Iwao tornou-se árbitra e atualmente concilia a função com seu trabalho como enfermeira. Ela espera que sua presença inspire meninas e jovens mulheres a acreditarem que também podem construir uma carreira no esporte.

“Quero mostrar que as mulheres também são capazes de fazer isso e encorajar outras pessoas a darem o melhor de si”, afirmou.

A presença feminina na arbitragem esportiva vem crescendo em diversas modalidades ao redor do mundo. No basquete, a NBA introduziu sua primeira árbitra há quase três décadas. No judô, a japonesa Akiko Amano atuou em três edições dos Jogos Olímpicos. Já na Copa do Mundo da FIFA de 2022, no Catar, mulheres apitaram partidas do torneio masculino pela primeira vez, incluindo a árbitra japonesa Yoshimi Yamashita.

O beisebol também tem acompanhado essa transformação. A Major League Baseball (MLB) passou a contar com árbitras em seus quadros recentemente, refletindo uma tendência global de maior inclusão no esporte.

Agora, essa mudança chega ao Estádio Koshien, considerado um dos palcos mais simbólicos e respeitados do esporte japonês.

Segundo dados divulgados há dois anos, cerca de 20 mulheres integravam comissões de arbitragem das federações escolares de beisebol em diferentes cidades do Japão.

O presidente do comitê de regras da Federação Japonesa de Beisebol Escolar, Taisuke Ozaki, afirmou que a organização enfrenta uma grave falta de árbitros e precisa ampliar a participação de voluntários e profissionais para manter as competições.

“Queremos criar um ambiente onde mais pessoas estejam dispostas a contribuir, para que possamos trabalhar juntos e ajudar o maior número possível de pessoas”, disse.

A estreia das árbitras em Koshien representa não apenas uma conquista para as mulheres no esporte, mas também um passo importante para a modernização e inclusão em uma das tradições esportivas mais importantes do Japão.