Projeto em Kagawa utiliza microorganismos para converter sobras de udon em folhas resistentes e sustentáveis, reduzindo o desperdício de alimentos
Universidade japonesa transforma macarrão udon descartado em papel biodegradável
Uma universidade de Kagawa, no oeste do Japão, está transformando um dos alimentos mais tradicionais da região em um material inovador e sustentável. Pesquisadores da Universidade de Kagawa desenvolveram uma tecnologia capaz de produzir um tipo de papel biodegradável a partir de macarrão udon que seria descartado.
O projeto utiliza microorganismos para converter sobras de macarrão de trigo em finas folhas de celulose, com textura semelhante ao tradicional papel japonês conhecido como “washi”. A iniciativa busca reduzir o desperdício de alimentos e criar novas oportunidades econômicas para a comunidade local.
A tecnologia foi desenvolvida pelo professor Naotaka Tanaka, da Faculdade de Agricultura da Universidade de Kagawa. O pesquisador aplicou seus estudos sobre microorganismos e bactérias produtoras de celulose para criar o novo material.
Kagawa é famosa pelo Sanuki udon, uma especialidade regional que atrai turistas de várias partes do Japão. No entanto, grandes quantidades do alimento acabam sendo descartadas diariamente, especialmente após perderem sabor e qualidade depois de cozidas e permanecerem expostas por muito tempo.
Segundo Tanaka, a ideia surgiu justamente da preocupação com esse desperdício. O professor explicou que o processo para transformar o macarrão descartado em açúcar era relativamente simples, o que o motivou a colocar o projeto em prática.
A produção do material começa com a mistura do udon descartado com água em um liquidificador. Em seguida, enzimas são adicionadas para decompor o amido e transformá-lo em glicose. Depois, bactérias do ácido acético são cultivadas na mistura e produzem gradualmente uma membrana de celulose ao longo de vários dias.
Após essa etapa, a membrana é transferida para bandejas e seca naturalmente ao ar livre, eliminando a necessidade dos processos convencionais de fabricação de papel.
De acordo com os pesquisadores, uma única porção de udon pode gerar entre cinco e dez folhas de papel no tamanho A4. O material apresenta resistência superior à água e ao rasgo quando comparado ao papel comum, além de se decompor naturalmente no solo por meio da ação de outros microorganismos.
Tanaka começou a produzir o chamado papel microbiano há cerca de 16 anos como ferramenta educacional para ajudar estudantes a compreenderem o funcionamento das bactérias produtoras de celulose. Com o tempo, ele percebeu que o material era surpreendentemente leve e resistente, passando então a explorar seu potencial para combater o desperdício alimentar na região.
Em 2020, a universidade compartilhou gratuitamente a tecnologia com uma instituição de assistência social da cidade. A proposta era oferecer oportunidades de trabalho leve para pessoas com deficiência, ao mesmo tempo em que ampliava a produção do material sustentável.
Nos primeiros anos, o projeto enfrentou dificuldades devido à contaminação por bactérias e ao surgimento de mofo durante a fabricação. O problema foi resolvido com o uso de caixas com controle de temperatura, permitindo a estabilização da produção.
Atualmente, a instituição parceira produz cerca de 100 folhas por mês. A universidade compra o material fabricado, criando um ciclo produtivo local que conecta restaurantes, pesquisadores e trabalhadores da assistência social. Os estabelecimentos participantes fornecem o macarrão que seria descartado, enquanto a universidade transforma o resíduo em um produto de valor agregado.
As folhas já foram utilizadas na produção de brindes promocionais e obras de arte. Além disso, os pesquisadores estudam novas aplicações para o material biodegradável, incluindo seu uso como isca artificial para pesca e outros produtos que possam se decompor naturalmente após o descarte.
Como contrapartida aos restaurantes que fornecem o udon, a universidade entrega dados sobre volumes diários de desperdício e condições climáticas. Os pesquisadores acreditam que essas informações poderão ajudar os estabelecimentos a prever melhor a demanda e reduzir perdas no futuro.
Para Naotaka Tanaka, a iniciativa tem potencial para servir de exemplo no combate ao desperdício de alimentos e demonstra como características locais podem ser transformadas em soluções sustentáveis e inovadoras para a sociedade.
