Sistema de multas “blue ticket” passa a incluir bicicletas a partir de abril e levanta debate sobre rotina familiar
A partir de abril, o Japão vai ampliar o chamado sistema de multas administrativas conhecido como “blue ticket” para incluir também bicicletas. A medida, que antes era aplicada apenas a carros e motocicletas em infrações leves de trânsito, permitirá que policiais multem ciclistas no local da infração.
A mudança tem gerado preocupação entre pais que dependem da bicicleta para transportar filhos no dia a dia, especialmente em grandes cidades como Tóquio.
Uma mãe na faixa dos 40 anos, que trabalha meio período, afirma que usa a bicicleta para levar o filho, que está no segundo ano do ensino fundamental e frequenta uma classe de educação especial. O trajeto leva de 10 a 15 minutos. De ônibus, segundo ela, o tempo aumentaria para cerca de 40 minutos, além de ser mais caro.
Ela reconhece que transportar uma criança dessa idade na bicicleta pode violar a legislação de trânsito japonesa, mas diz não ter alternativa viável. “Gostaria que entendessem que algumas famílias simplesmente não conseguem viver o dia a dia sem levar os filhos de bicicleta”, afirmou.
Situações como essa são comuns no país. Em creches e centros de apoio após a escola, é frequente ver fileiras de bicicletas elétricas com assentos infantis, usadas por pais que trabalham.
Uma pesquisa online realizada em 2024 por uma empresa do setor apontou que 87% dos entrevistados disseram precisar ou querer transportar crianças em idade escolar por bicicleta.
De acordo com as regras da Agência Nacional de Polícia japonesa, existem 113 tipos de infrações para ciclistas que podem resultar em multa. Entre elas está o transporte de passageiros, conhecido como “andar em dupla”, com penalidade de cerca de 3 mil ienes (aproximadamente 18 dólares).
Pela lei de trânsito do país, andar de bicicleta com duas pessoas é, em princípio, proibido. Há exceções quando há assento infantil instalado, mas, na prática, isso costuma ser permitido apenas para crianças abaixo da idade escolar.
Especialistas questionam esse limite. Segundo um representante de uma organização de promoção do uso de bicicletas, o critério pode não ser totalmente razoável, já que crianças variam muito em tamanho e peso.
Apesar da nova regra, ele avalia que nem toda infração resultará automaticamente em multa. Casos mais rigorosos incluem situações como atravessar linha férrea com a cancela fechada, usar celular enquanto pedala, circular com freios defeituosos ou cometer infrações que coloquem pedestres em risco.
No caso de transportar crianças maiores, a multa tende a ocorrer principalmente quando há outra infração combinada, como avançar o sinal vermelho, ou quando o ciclista ignora orientações policiais.
Ainda assim, a possibilidade de penalização aumenta a insegurança de pais que dependem desse meio de transporte.
Especialistas sugerem alternativas, como incentivar o uso precoce de bicicletas próprias pelas crianças. Já representantes da indústria defendem a criação de veículos mais seguros, como triciclos ou modelos com mais rodas, além de mudanças na legislação para acompanhar a realidade das famílias.
O debate vai além da aplicação de multas. A nova regra levanta uma questão mais ampla: como equilibrar segurança no trânsito com as necessidades do cotidiano, garantindo opções de mobilidade acessíveis e seguras para todos.
