Família Imperial Japonesa fortalece laços e reflete sobre o passado em visita histórica a Amsterdã

O Imperador Naruhito e a Imperatriz Masako participaram de um banquete de Estado com a realeza holandesa e prestaram homenagens no Monumento Nacional.

A capital holandesa, Amsterdã, foi palco de uma visita com profunda carga histórica e diplomática na última quarta-feira. O Imperador Naruhito e a Imperatriz Masako, membros da Família Imperial Japonesa, participaram de cerimônias oficiais que mesclaram a celebração de mais de quatro séculos de relações bilaterais com reflexões solenes sobre as feridas deixadas pela Segunda Guerra Mundial.

A recepção formal teve início por volta das 10h da manhã na Praça Dam. O casal imperial foi calorosamente recebido pelo Rei Willem-Alexander e pela Rainha Máxima, ocasião marcada pela execução dos hinos nacionais holandês e japonês e pela apresentação de uma guarda de honra. A visita oficial, que começou no sábado com a estadia na cidade de Apeldoorn e a transferência para o Palácio Real na terça-feira, deve se estender até o próximo sábado, quando a comitiva imperial parte para a Bélgica.

O imperador Naruhito e a imperatriz Masako depositam uma coroa de flores e oferecem uma oração silenciosa no Monumento Nacional na Praça Dam, em Amsterdã, na Holanda, em 17 de junho. (Imagem: Koichi Ueda via Asahi)

Cerimônia no Monumento Nacional e Reflexões sobre a Guerra

Após a recepção, o imperador e a imperatriz retornaram brevemente ao Palácio Real e, em seguida, dirigiram-se ao Monumento Nacional, acompanhados pelo primeiro-ministro holandês Rob Jetten. Em um momento de profundo respeito perante centenas de espectadores, o casal depositou uma coroa de flores no monumento aos mortos da nação e ofereceu uma oração silenciosa de aproximadamente um minuto e meio.

A homenagem toca diretamente em um dos capítulos mais sombrios da história compartilhada. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças militares da nação nipônica invadiram as Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia), resultando em massivas baixas. O governo da Holanda estima que o conflito tenha resultado na captura de 40.000 prisioneiros militares, no internamento de cerca de 90.000 civis e na morte de aproximadamente 24.000 pessoas.

Este passado gerou forte sentimento antijaponês no pós-guerra. Em 1971, o avô de Naruhito, o Imperador Showa, enfrentou protestos durante sua visita, quando um manifestante arremessou uma garrafa térmica em seu veículo. Os esforços de reconciliação começaram a ganhar mais força no ano 2000, com a visita do pai de Naruhito, o ex-imperador Akihito e a ex-imperatriz Michiko, que também depositaram flores no mesmo memorial.

Antes de desembarcar, o Imperador Naruhito expressou o desejo de estender seus pensamentos àqueles que ainda sofrem com as memórias da época. Entre as sobreviventes está Thea Meulders, de 86 anos, que foi internada na infância após perder o pai para o exército invasor. “Sofremos com a fome e, no ambiente insalubre, alguém morria todos os dias”, disse Thea Meulders. Apesar de declarar não ter expectativas, ela enxerga os gestos da Família Imperial Japonesa como um primeiro passo importante. O embaixador holandês no Japão reforçou a necessidade de manter viva a memória. “Não podemos ter um futuro sem a orientação do passado, porque, caso contrário, cometeremos os mesmos erros novamente”, disse Gilles Beschoor Plug.

O Banquete de Estado e o Discurso de Reconciliação

A temática da reconciliação guiou os discursos durante o banquete de Estado realizado no Palácio Real de Amsterdã, que contou com a presença de cerca de 200 convidados. Entre eles, estavam figuras centrais do intercâmbio entre os países, membros de organizações de vítimas da guerra e representantes da casa real neerlandesa, como a princesa herdeira Catharina-Amalia e a ex-rainha Beatrix.

Em seu discurso de boas-vindas, o Rei Willem-Alexander reconheceu o doloroso impacto do conflito. “Vossa Majestade, o senhor e eu nascemos muitos anos depois da Segunda Guerra Mundial”, disse o rei Willem-Alexander, completando: “Conhecemos o sofrimento daquele período apenas através das histórias daqueles que o vivenciaram. É por isso que é vital que essas histórias continuem a ser compartilhadas”. Ele também ressaltou o sofrimento dos cidadãos japoneses, especialmente na fase final da guerra.

O imperador Naruhito do Japão, à esquerda, e o rei Willem Alexander dos Países Baixos são vistos durante um banquete de estado no Palácio Real de Amsterdã, na Holanda, em 17 de junho de 2026. (Imagem via Associated Press / Kyodo)

Ecoando as palavras do anfitrião, o Imperador Naruhito proferiu seu discurso em inglês, abordando o trágico custo humano do conflito. “É realmente triste que muitas vidas preciosas tenham sido perdidas e muitas pessoas tenham ficado feridas, incluindo um grande número de civis, durante a última guerra mundial”, disse Naruhito. O representante da Família Imperial Japonesa enfatizou que é dever da sociedade atual manter-se humilde e transmitir as experiências difíceis para as novas gerações. “Tendo em mente que ainda hoje há aqueles que sofrem com a dor daquele período, devemos prosseguir com afinco nossos esforços pela paz”, disse Naruhito, manifestando a esperança de que ambas as nações continuem a caminhar juntas pela paz.

Além do peso histórico, o encontro oficial teve momentos de descontração e celebração da amizade de longa data. O imperador relembrou uma viagem de veleiro realizada em 1984 e a visita da família real holandesa à princesa Aiko em 2006.

Ele também destacou que as relações bilaterais não foram interrompidas nem mesmo durante a política isolacionista japonesa, devido à dedicação extraordinária dos governos e dos povos. Naruhito arrancou risadas dos presentes ao mencionar a partida entre a Holanda e a seleção nipônica na Copa do Mundo, que os dois casais assistiram juntos no domingo, resultando em um empate de 2 a 2. “Devo dizer que fiquei aliviado com o resultado pacífico”, brincou Naruhito, destacando que o esporte fortalece os laços bilaterais. O banquete encerrou um dia marcante na agenda da Família Imperial Japonesa, equilibrando de forma sensível a construção do futuro com o respeito à memória do passado.

Com informações via Mainichi Shimbun – Link 1 e Link 2 e Asahi Shimbun