Crise de mecânicos paralisa helicópteros médicos e ameaça sistema de resgate aéreo no Japão

Falta de profissionais de manutenção provoca suspensão de voos e preocupa autoridades sobre o futuro do atendimento de emergência aérea

Helicópteros médicos, usados para levar médicos rapidamente até pacientes em situações de emergência, estão sendo suspensos em várias regiões do Japão desde o último verão. A principal causa é a grave falta de mecânicos especializados, o que levanta alertas de autoridades sobre um possível colapso do sistema de atendimento médico aéreo no país.

Esses helicópteros, conhecidos como “salas de emergência voadoras”, dependem de engenheiros de voo e técnicos de manutenção para operar com segurança. No entanto, empresas contratadas para os serviços enfrentam dificuldades crescentes para manter equipes completas, em meio ao envelhecimento da população japonesa e à queda do interesse por carreiras técnicas.

A situação levou o governador de Tokushima, Masazumi Gotoda, a pedir apoio do governo central. Ele atua como responsável pela área médica da União dos Governos de Kansai, que reúne prefeituras do oeste do Japão. Em outubro, Gotoda enviou um pedido formal aos ministérios da Saúde e dos Transportes, afirmando que os helicópteros médicos da região estão em “estado crítico”.

A união opera oito helicópteros baseados em hospitais de sete cidades. Todos os voos são operados pela instituição educacional Hirata Gakuen, com sede em Sakai, em Osaka. Entre julho e agosto de 2025, cada aeronave ficou parada por até sete dias devido a afastamentos de engenheiros de voo. Aposentadorias e atrasos no retorno desses profissionais agravaram o problema a partir de outubro, e as suspensões devem continuar até o fim do ano.

Segundo a Sociedade Japonesa de Serviços Aeromédicos, 57 helicópteros médicos estavam em operação em todo o país no ano de 2024, quando atenderam quase 22 mil pacientes. A importância desse serviço ficou clara após o terremoto que atingiu a região de Noto no início daquele ano.

O problema pode piorar em breve. Seis dos oito contratos dos helicópteros da região de Kansai vencem no fim de março de 2026. Para quatro deles, apenas uma proposta foi apresentada em licitação pública, cobrindo apenas uma aeronave. A Hirata Gakuen estuda reduzir suas operações.

A falta de interesse não se limita à região. A mesma empresa também teve suspensões em helicópteros médicos baseados em hospitais de Tóquio e em Nagasaki.

A escassez de mecânicos afeta toda a aviação japonesa. O governo pretende receber 60 milhões de turistas estrangeiros por ano até 2030, o que exigirá cerca de 7.400 técnicos de manutenção — 20% a mais do que em 2023. Mesmo assim, o número de estudantes em escolas técnicas de aviação caiu pela metade em relação ao período antes da pandemia.

Em uma faculdade de aviação de Gifu, o número de formandos com licença nacional para manutenção de helicópteros caiu de 39 em 2019 para apenas 18 em 2025. As inscrições de estudantes do ensino médio também despencaram.

Para tentar atrair profissionais, empresas têm oferecido incentivos como programas de estudo no exterior com custos pagos. Especialistas, porém, dizem que isso não é suficiente.

“São, em sua maioria, pequenas e médias empresas, e há limites para o que elas conseguem fazer sozinhas”, afirmou Hidenori Sugihara, professor de manutenção aeronáutica.

Já Sadaki Inokuchi, diretor da sociedade de serviços aeromédicos, alertou que o país está vivendo agora um cenário que só era esperado para daqui a cinco ou dez anos. Ele defende reformas profundas lideradas pelo governo, incluindo melhores condições de trabalho para mecânicos e subsídios para formar novos profissionais.

Sem essas medidas, o futuro do resgate aéreo médico no Japão segue cada vez mais incerto.