Autor britânico reflete sobre significado da palavra “sensei” na cultura japonesa

Escritor Damian Flanagan diz que o termo japonês vai além da ideia de “mestre” e pode estar ligado à obsessão e até à figura do “tolo”

O escritor e crítico britânico Damian Flanagan publicou uma reflexão sobre o significado da palavra japonesa “sensei” e como o termo pode ser entendido de forma muito diferente dentro e fora do Japão.

Conhecida mundialmente por filmes e produções de Hollywood como sinônimo de “mestre sábio” ou especialista em artes marciais, a palavra “sensei” é usada no Japão de maneira muito mais ampla. Professores, instrutores e até jovens estrangeiros que ensinam inglês no país recebem esse título no cotidiano.

Segundo Flanagan, essa diferença cultural o levou a pensar sobre o que chamou de “mal-entendido criativo”, quando uma interpretação equivocada acaba gerando uma nova perspectiva interessante sobre determinado assunto.

O autor afirma que começou a refletir sobre como alguém pode ser considerado “sensei” em apenas uma área específica da vida, sem necessariamente representar um exemplo de sabedoria ou experiência em todos os aspectos pessoais.

Para explicar a ideia, ele citou a famosa série japonesa de filmes “Tsuri Baka Nisshi” (“Diário de um Viciado em Pesca”), baseada em um mangá popular. Nas histórias, um simples funcionário apaixonado por pesca cria amizade com o presidente de sua empresa, invertendo os papéis tradicionais ao se tornar referência no assunto.

Apesar de inicialmente acreditar que o personagem principal era tratado como um “sensei” da pesca, Flanagan descobriu que ele era descrito como um “baka salaryman”, expressão que pode ser traduzida como “funcionário bobo” ou “obsessivamente apaixonado” pela atividade.

A partir disso, o escritor passou a enxergar uma ligação curiosa entre as palavras japonesas “sensei” e “baka”, que significa “idiota” ou “tolo”. Para ele, muitos especialistas só alcançam um alto nível de conhecimento porque antes se dedicaram de forma quase obsessiva ao que gostam.

Flanagan também relembrou uma frase do escritor japonês Natsume Soseki, considerado um dos maiores nomes da literatura do Japão. Segundo Soseki, a palavra “sensei” pode até ser usada ironicamente como sinônimo de “baka”.

O autor citou ainda o romance Kokoro, em que um personagem chamado apenas de “Sensei” recebe o título sem demonstrar grandes feitos ou sabedoria especial, algo que Flanagan acredita ter sido uma crítica sutil do escritor japonês.

Na análise, o britânico também relaciona o termo às ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Para ele, o “sensei” pode simbolizar alguém que já atingiu um ponto final de desenvolvimento pessoal, diferente do estudante curioso que continua buscando novas experiências.

Flanagan revelou ainda que se sente mais confortável sendo chamado de “baka” do que de “sensei”. Segundo ele, o termo ligado à curiosidade obsessiva e ao desejo constante de aprender parece mais humano do que o status associado à figura do mestre.

O escritor vive atualmente entre o Japão e o Reino Unido e é autor de obras sobre literatura e cultura japonesa, incluindo livros sobre Yukio Mishima e Natsume Soseki.