Ilha remota do Japão pode perder biodiversidade por projeto de depósito nuclear, alerta instituto

Pesquisadores afirmam que estudos e futuras obras para armazenamento de resíduos radioativos podem ameaçar espécies raras em Minamitori

A Ilha Minamitori, território mais oriental do Japão, pode sofrer danos ambientais irreversíveis caso avance o projeto para transformá-la em um local de armazenamento permanente de resíduos nucleares altamente radioativos. O alerta foi feito por um instituto de pesquisa especializado na preservação ambiental do arquipélago de Ogasawara.

O governo japonês iniciou em maio a primeira etapa de avaliação para verificar se a ilha é adequada para receber um depósito definitivo de lixo nuclear. O processo faz parte de um plano de três fases que pode durar cerca de 20 anos até a definição final do local.

Desde que a proposta foi apresentada pelo governo central, em março, o Instituto de Boninologia, sediado na vila de Ogasawara, passou a reunir e divulgar informações científicas sobre a biodiversidade da ilha. Até o momento, mais de 120 estudos acadêmicos foram compilados pelos pesquisadores.

Segundo o instituto, os dados demonstram que Minamitori possui um ecossistema de alto valor para a conservação ambiental, com diversas espécies raras de peixes, plantas e aves que existem em poucos lugares do mundo.

Entre os exemplos citados está um raro peixe-anjo descoberto nas águas da ilha em 1987. A espécie apresenta mudanças em sua coloração ao longo da vida e tem a capacidade de mudar de sexo, passando de fêmea para macho. Pesquisadores acreditam que a região seja um de seus principais habitats naturais.

Outra espécie considerada especial é a árvore conhecida como “grand devil’s-claws”, encontrada principalmente na Austrália e em ilhas do Pacífico Sul. No Japão, ela só existe na Ilha Minamitori.

Os cientistas também destacam uma descoberta feita em 2022, quando uma pesquisa ornitológica registrou pela primeira vez em 120 anos a reprodução confirmada de uma andorinha-do-mar-branca no território japonês.

Apesar dessas características ambientais, a Organização de Gestão de Resíduos Nucleares do Japão, responsável pelo projeto, informou que a fase inicial de avaliação considera principalmente aspectos geológicos, como camadas de rochas e recursos minerais. Segundo a entidade, os ecossistemas locais não fazem parte dos critérios analisados nessa etapa.

O vice-diretor do Instituto de Boninologia, Hajime Suzuki, afirmou que as informações científicas já disponíveis são suficientes para demonstrar a importância ecológica da ilha. Ele defende que estudos ambientais aprofundados sejam realizados antes que o aumento da presença humana na região provoque mudanças significativas no ecossistema.

Os pesquisadores alertam ainda que as próximas fases do processo poderão gerar impactos mais severos. A etapa de investigação preliminar prevê perfurações no solo para coleta de informações geológicas. Já a fase de investigação detalhada exigiria a construção de instalações subterrâneas, o que poderia alterar significativamente o ambiente natural da ilha.

A preocupação dos especialistas é que o desenvolvimento da infraestrutura necessária para o projeto comprometa habitats sensíveis e coloque em risco espécies raras que dependem das condições únicas encontradas em Minamitori.

O debate sobre o destino da ilha ocorre em meio à busca do Japão por soluções de longo prazo para o armazenamento seguro de resíduos nucleares altamente radioativos, um dos principais desafios da política energética do país.