Dubladora de Evangelion denuncia uso ilegal de sua voz por IA e cobra leis mais rígidas no Japão

Megumi Ogata afirma que sua voz foi clonada sem autorização para conteúdos explícitos, golpes e outros usos indevidos, enquanto pede regulamentação específica para proteger artistas

A dubladora japonesa Megumi Ogata, conhecida por dar voz a Shinji Ikari, da franquia Evangelion, e Yuta Okkotsu, de Jujutsu Kaisen, denunciou o uso não autorizado de sua voz por ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa. A artista afirmou que descobriu o problema há cerca de dois anos, após ser alertada por profissionais da indústria e por fãs.

Segundo Ogata, sua voz foi copiada e utilizada sem qualquer autorização para criar conteúdos que ela jamais gravou. Entre os casos identificados estão áudios com frases de conteúdo sexual, além de vídeos que alteravam falas e cenas de produções nas quais participou.

A dubladora afirmou que a situação é extremamente desagradável e que chegou a evitar acompanhar novos casos devido ao impacto emocional causado pela prática.

Ela explicou que, com o avanço da tecnologia de IA, a qualidade das imitações aumentou significativamente. Atualmente, existem plataformas que oferecem programas capazes de treinar uma inteligência artificial usando gravações da voz de um dublador para reproduzir qualquer texto digitado pelo usuário. Algumas dessas plataformas chegam a anunciar o uso comercial do material, mesmo sem autorização dos profissionais.

De acordo com Ogata, combater individualmente esse tipo de violação é praticamente impossível. Ela afirma que centenas de novos vídeos podem ser publicados diariamente, tornando inviável apresentar pedidos de remoção ou ações judiciais para cada caso. Além disso, muitas páginas são apagadas rapidamente, dificultando a coleta de provas.

Outro desafio apontado pela artista envolve os direitos sobre as vozes de personagens de anime. Ela explica que esses direitos não pertencem apenas ao dublador, mas também aos comitês de produção e aos autores das obras, tornando qualquer processo judicial ainda mais complexo.

Para Ogata, o problema vai além das perdas financeiras. Ela considera que sua voz faz parte de sua identidade artística e afirma que os personagens que interpreta carregam parte de sua personalidade e de suas emoções. Por isso, considera inaceitável que esse trabalho seja utilizado sem consentimento.

A dubladora também demonstrou preocupação com o impacto sobre o público. Segundo ela, vozes de personagens já vêm sendo usadas em golpes financeiros, pedidos falsos de dinheiro e até abordagens religiosas. Ela teme que fãs sejam enganados ao acreditar que estão ouvindo personagens ou artistas reais.

Além dos profissionais famosos, Ogata destacou que pessoas comuns também estão sendo vítimas da clonagem de voz para fraudes de identidade e produção de conteúdos adultos. Na avaliação da artista, toda pessoa deveria ter o direito de impedir que sua voz fosse utilizada sem autorização.

Embora reconheça que existem diferentes opiniões dentro da indústria sobre o uso da inteligência artificial, Ogata afirma que sua voz nasce da interpretação, das emoções e da interação com outros atores durante as gravações. Para ela, a atuação não pode ser separada dos sentimentos humanos.

O Ministério da Justiça do Japão já discute possíveis responsabilidades civis relacionadas ao uso não autorizado de vozes por inteligência artificial. Mesmo considerando esse debate um avanço, a dubladora defende a criação de leis específicas e regras detalhadas para proteger artistas e consumidores.

Ela ainda alertou que países como Coreia do Sul e Estados Unidos avançam mais rapidamente na criação de normas sobre o tema, enquanto o Japão corre o risco de ficar para trás na proteção de seus profissionais criativos. Para Ogata, um país reconhecido por sua produção cultural precisa garantir mecanismos eficazes para proteger o trabalho de seus artistas contra o uso indevido da inteligência artificial.