Pesquisadores descobriram que a reativação de um vírus e a redução de um neurotransmissor cerebral podem estar ligadas aos sintomas; medicamento usado contra demência mostrou resultados promissores
Uma equipe de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Jikei, no Japão, anunciou ter identificado parte do mecanismo responsável por dois dos sintomas mais comuns da Covid longa: a fadiga persistente e a depressão.
Segundo o estudo, esses sintomas estão associados à redução dos níveis de acetilcolina, um neurotransmissor essencial para o funcionamento do cérebro. Os pesquisadores também observaram melhora dos sintomas com o uso de um medicamento já utilizado no tratamento da demência.
A Covid longa, também conhecida como síndrome pós-Covid, é uma condição em que diversos sintomas permanecem por semanas ou meses após a infecção pelo coronavírus. Entre os problemas mais frequentes estão cansaço extremo, dificuldades cognitivas, falta de concentração e sintomas depressivos. Apesar do impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, as causas da condição ainda não são totalmente compreendidas.
A equipe japonesa concentrou suas investigações na possível reativação do herpesvírus humano 6B (HHV-6B), um vírus comum que permanece latente no organismo após a infecção inicial. Os cientistas analisaram amostras de sangue de pacientes com Covid longa e mediram os níveis de anticorpos contra a proteína SITH-1, considerada um indicador da reativação desse vírus.
Os resultados mostraram que cerca de 70% dos pacientes com Covid longa apresentavam resultado positivo para os anticorpos, indicando que a reativação viral ocorre com frequência nesses casos.
Ao comparar os resultados dos exames com os sintomas relatados pelos pacientes, os pesquisadores constataram que aqueles com anticorpos positivos tendiam a apresentar níveis mais elevados de fadiga e depressão.
Para aprofundar a investigação, foram realizados experimentos em camundongos. Os cientistas induziram a produção da proteína SITH-1 em uma região cerebral chamada bulbo olfatório. Como consequência, os animais apresentaram redução dos níveis de acetilcolina e comportamentos semelhantes aos observados em quadros de fadiga e depressão.
Em seguida, os camundongos receberam donepezila, medicamento utilizado no tratamento da doença de Alzheimer e outras formas de demência. Após o tratamento, houve melhora significativa dos sintomas observados nos animais.
Os pesquisadores também reavaliaram dados de um ensaio clínico randomizado realizado anteriormente. Entre os pacientes que apresentavam anticorpos contra a proteína SITH-1, o tratamento com donepezila demonstrou melhora significativa nos indicadores de fadiga e depressão.
A professora Naomi Oka, especialista em virologia da Universidade Jikei e líder da pesquisa, afirmou que atualmente não existem tratamentos eficazes amplamente reconhecidos para a Covid longa. Segundo ela, os resultados sugerem que a donepezila pode representar uma alternativa promissora para aliviar alguns dos sintomas mais debilitantes da condição.
A pesquisadora destacou ainda que está em desenvolvimento um método diagnóstico capaz de identificar pacientes com anticorpos anti-SITH-1, o que poderá ajudar a selecionar aqueles com maior probabilidade de responder ao tratamento.
De acordo com os autores, a descoberta também reforça a hipótese de que a deficiência de acetilcolina e a inflamação cerebral estejam relacionadas não apenas à Covid longa, mas possivelmente a outras doenças, incluindo alguns tipos de depressão.
Os resultados da pesquisa foram publicados em 4 de junho na revista científica internacional Frontiers in Pharmacology.
