Cresce número de universitários com deficiência do desenvolvimento no Japão, e casos são identificados cada vez mais tarde

Relatório mostra aumento de cinco vezes em 10 anos; muitos jovens só descobrem a condição após enfrentar dificuldades na vida acadêmica e social

O número de estudantes universitários com deficiências do desenvolvimento está aumentando de forma significativa no Japão, e muitos só descobrem a condição depois de enfrentar dificuldades na vida acadêmica e social. É o que mostra uma pesquisa da Japan Student Services Organization, que registrou 14.666 alunos com esse tipo de condição no ano acadêmico de 2024 — cinco vezes mais do que há uma década.

As deficiências do desenvolvimento incluem distúrbios causados por alterações congênitas no funcionamento do cérebro, que podem dificultar a vida cotidiana e as relações sociais. Embora o governo incentive a detecção precoce em consultas infantis e outros serviços, muitos casos só se tornam evidentes durante mudanças importantes na vida, como a entrada na universidade ou o início da vida profissional.

Um desses jovens é Kenta (nome fictício), de 24 anos, aluno do primeiro ano de pós-graduação na Universidade de Saga. Ele ingressou na instituição em 2020, vindo de uma escola de prestígio na região de Kyushu. No entanto, logo no primeiro semestre, conseguiu concluir apenas duas das mais de 10 disciplinas cursadas.

Durante o período de aulas online, por causa da pandemia, Kenta voltava para casa todos os dias e assistia às aulas pela internet. O portal da universidade enviava avisos de tarefas e vídeos obrigatórios, mas ele deixava muitos passar despercebidos. “Parecia tropeçar em um obstáculo”, lembrou.

Com o retorno das aulas presenciais, no segundo ano, o problema persistiu. Mesmo sabendo que faltas prejudicariam seu rendimento, ele não conseguia se motivar. Ao perceber que o tempo havia passado, desistia, pensando: “Agora já é tarde demais”.

Quando estava prestes a entrar no terceiro ano, ficou claro que teria de repetir. Preocupada, sua mãe procurou o orientador acadêmico, que então o encaminhou para a Sala de Apoio à Vida Universitária, um setor central no campus responsável por atender estudantes com dificuldades acadêmicas ou de adaptação.

O local conta com quatro coordenadores especializados em psicologia. Eles oferecem aconselhamento e ajudam na implementação de “ajustes razoáveis” — medidas que reduzem barreiras para estudantes com deficiências ou problemas de saúde.

Após cerca de uma hora relatando seus desafios, Kenta ouviu do professor associado Shunji Nakajima, psicólogo clínico e chefe do setor, a sugestão de fazer um teste para mapear suas habilidades e dificuldades. Era a versão adulta da Escala de Inteligência Wechsler, um dos testes de QI mais usados no mundo e adotado por instituições médicas no processo de diagnóstico de deficiências do desenvolvimento. A universidade oferece o exame gratuitamente.

Kenta aceitou. Respondeu às perguntas por duas horas e depois recebeu o resultado. Seu QI era acima da média, mas havia grande diferença entre seus pontos fortes e fracos. Nakajima explicou que essa disparidade — independentemente do QI — costuma trazer dificuldades práticas.

Ele destacou que o estudante tinha facilidade com linguagem e escrita, mas enfrentava desafios para perceber informações visuais do dia a dia e para lidar com tarefas sob pressão de tempo. “Você apresenta características comuns em deficiências do desenvolvimento. O teste não dá um diagnóstico, mas consultar um médico pode ser uma opção”, disse o professor.

O termo “deficiência do desenvolvimento” surpreendeu Kenta, que nunca havia considerado essa possibilidade. Após conversar com a mãe, procurou uma clínica seis meses depois e recebeu diagnóstico de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), principalmente pelo lado da desatenção, além de traços do transtorno do espectro autista (TEA).

O apoio da universidade, baseado nos resultados do teste, começou antes mesmo da confirmação médica. Agora, Kenta consegue identificar seus obstáculos e criar estratégias para lidar melhor com eles, evitando repetição dos mesmos problemas.